terça-feira, 1 de julho de 2008

Sob a escola de Antonio Gramsci



A influência intelectual na formação do pensamento social

Entre 1919 e 1943, a Itália foi submetida a um regime político fascista, implantado por Benito Mussolini, após ter enfrentado longos anos de regime liberal. O fascismo fundado por Mussolini, foi oficializado em 1919, em Milão, a partir do movimento intitulado “Fascio de Combatimento” e integrado pelos “camicie nere” (camisa preta na tradução). Nesta época a Itália atravessava uma crise econômica, agravada entre outros motivos por manifestações de trabalhadores e greves. Diante disso, uma das medidas tomadas por este regime totalitarista foi o combate aos movimentos de esquerda. A maioria parlamentar fascista também promoveu a perseguição de partidos e parlamentares oposicionistas.

Antonio Gramsci, além de Deputado e Secretário do Partido Comunista Italiano, foi participante de atividades políticas de oposição ao regime fascista italiano de Mussolini. Consequentemente, foi preso em 08.11.1926. Ele passou os últimos anos de sua vida na prisão, com acesso a poucos livros. Gramsci foi um filósofo revolucionário e manteve em si sua militância. Enquanto estava preso desenvolveu uma série de estudos e reflexões, que geraram seus escritos. A compilação das anotações que sobreviveram ao tempo constituiu sua clássica obra que foi intitulada “Cadernos do Cárcere”. Acredito que os conceitos estudados e expressos por Gramsci em sua obra são de extrema importância, pois são fatos que estiveram presentes nas estruturas sociais que o precederam e continuam presentes até hoje.

Em seu famoso ensaio “A Formação dos Intelectuais” Gramsci questionou o processo de formação dos intelectuais. Cita e exemplifica a formação dos intelectuais “orgânicos”, cada vez mais dotados de “capacidade técnica”, “não somente no campo econômico, mas também no social e político”, que devem desenvolver em si consciência e aperfeiçoamento de suas funções a se desempenhar. Como Gramsci em seus estudos atentava muito para a questão da educação, tomei a liberdade de associar esta definição à atual educação brasileira: tanto nos treinamentos institucionais, quanto nos cursos técnicos e até nos de formação superior, é mais posta em evidência a capacidade no desempenho de uma função específica no mercado de trabalho, desenvolvendo cada vez mais o pensamento orgânico e ignorando a capacidade particular dos indivíduos. Assim, como os camponeses citados por Gramsci, mesmo com funções essenciais em seu trabalho, a massa cria cada vez menos seus próprios intelectuais, sejam eles “orgânicos” ou “tradicionais”.

Ao mencionar as categorias intelectuais preexistentes à sua época, fala da importância dos “intelectuais eclesiásticos”, uma categoria orgânica que evidentemente perdeu muita força com o passar dos anos, mesmo assim até hoje, a visão da Igreja (hoje constituída de diversas correntes religiosas), ainda tem poder no desenvolvimento do pensamento da população, que aceita as reflexões e interpretações de um determinado membro da hierarquia religiosa. Mesmo que este fato não cause impacto direto no desenvolvimento político da sociedade, o citei por acreditar que é um fato que tem grande responsabilidade pelos atos do não-pensar, acreditar, aceitar e obedecer, as informações (principalmente midiáticas na atualidade) que agregadas ao senso comum passam a atuar diretamente na política social. Assim contribuindo com a manutenção da estrutura ideológica vigente na sociedade.

Da mesma maneira colocada pelo autor, conforme as pessoas adquirem muita capacidade e embasamento em determinada atividade, começam a sentirem-se superiores aos demais que estabelecem relações com estas atividades, considerando-se enfim, autônomos e independentes do grupo social (ao contrário do colocado pelo autor, acredito que não somente do grupo social dominante, mas de qualquer grupo). Isto justifica a crescente individualização das pessoas, que tendem ao isolamento, que é expressivamente notável nas grandes metrópoles, dificultando a atividade de movimentos sociais e oposição aos interesses da classe dominante. A desunião da população trabalhadora (maioria) favorece a emergência da imposição de interesses da classe dominante (minoria). Nas grandes metrópoles, observo, que as pessoas se unem e compartilham de opiniões similares, em considerável parte, quando membros da mesma concepção religiosa. Dei importância a esta observação, pois é cada vez mais difícil a organização de reuniões espontâneas para discussão de qualquer assunto não-obrigatório e desvinculado de concepções religiosas.

Qualquer espécie de atividade, por mais mecânica que seja, necessita do emprego de capacidade intelectual. Não obstante, o que figura o sujeito, não é necessariamente sua capacidade no desenvolvimento das atividades, mas sua capacidade de relacionar-se caracterizando sua imagem como capaz. As relações sociais, sendo de trabalho ou não, contribuem com a fragmentação e concorrência dos membros dos grupos sociais e com a fixação dos valores que são agregados aos produtos. Para produção de um status que figure e apresente características pessoais, as pessoas se fragmentam, também, pelos produtos que consomem. Muita da confiança necessária para a participação de um grupo social dá-se através do consumido, seja ele um produto material ou cultural.

A construção do pensamento social varia de acordo com seus momentos históricos. As idéias que representam uma determinada sociedade são construídas como conseqüências das idéias construídas em um momento histórico anterior. Mesmo com a superação de boa parte das idéias anteriores, algumas destas idéias continuam se refletindo na sociedade. O conceito de Hegemonia estabelecido por Gramsci, representa a maneira de manter na sociedade um consenso para a construção de um pensamento social. Geralmente, este pensamento é linear com os ideais de interesse do Estado, portanto, favorece a ideologia dominante. Embora o Estado seja detentor de poder de coerção e coação, para estabelecer o consenso ele faz alianças acordando com seus interesses de sustentação econômica e ideológica. O Estado necessita de sólidas bases econômicas. Embora não participe diretamente das alianças estabelecidas por empresas para liderança no mercado, contribui através de suas falhas no sistema judiciário, pois é interessante para a circulação da moeda. Para ilustrar esta afirmação de minha opinião particular utilizarei como exemplo o atual crescimento das empresas de telemarketing no Brasil. Mesmo com a determinação do piso salarial de R$ 558,62 (não-comissionados) e R$ 510,92 (comissionados), para os operadores de telemarketing, as cinco empresas com maior lucro nos anos de 2005 e 2006, permaneceram e ainda permanecem com salários de pelo menos R$ 100,00 abaixo do piso (existe inclusive uma destas empresas que paga menos que o salário mínimo obrigatório de R$ 380,00). Existe também a obrigatoriedade da abertura de contas-salário para o recebimento do pagamento em banco. Isso não impede que grandes instituições bancárias façam contratos com grandes empresas de telemarketing, que obrigam seus funcionários a movimentarem seus salários em agências e contas especiais pré-determinadas. Esses funcionários têm uma redução média de R$ 30,00 em sua renda para manterem seus empregos graças às tarifas bancárias. Além disso, o sindicato dos operadores de telemarketing “garante” R$ 8,00 de vale alimentação a cada jornada de seis horas trabalhadas. As mesmas cinco empresas líderes de faturamento passam despercebidas por esta lei devido a uma parceria com uma empresa que produz lanches (a mesma nas cinco) . Logo, os funcionários recebem por dia um salgado de qualquer coisa e um mini refrigerante mais barato, que somados custam no varejo aproximadamente R$ 1,70 (imagine no atacado). Com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, creio que estes exemplos ilustram bem o sucesso de várias alianças. Por mais incrível que pareça, o operador de telemarketing fica feliz com seu baixo salário (pois não está nas estatísticas do desemprego), tem disponível facilidades financeiras (limite de conta bancária, cartão de crédito e empréstimos) e um lanchinho com baixos descontos em sua folha de pagamento. As instituições bancárias ficam felizes vendendo seus produtos e serviços através dos operadores de telemarketing e para os operadores de telemarketing. A empresa de lanches fica feliz produzindo para um mercado estável e com bastante economia de matéria prima. E claro que as empresas de telemarketing ficam felizes com o sucesso no faturamento e sem problemas com a lei.

O estabelecimento de alianças se faz necessário não somente quando em torno do acúmulo de capital. Mesmo antes de Gramsci desenvolver seu conceito de hegemonia, Lênin durante a Revolução Russa já havia percebido a necessidade de aliança entre trabalhadores e camponeses para solidificação da “Ditadura do Proletariado”, e para liderança no conflito com os Mencheviques.


“Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”.
Antonio Gramsci



Sobrescrita uma das frases mais conhecidas de Gramsci, um grande intelectual que cumpriu de maneira extraordinária sua função na sociedade. Antonio Gramsci faleceu em 27.04.1937, aos 46 anos de idade, pouco depois de sair da cadeia. Mesmo com poucas bases de estudo, desenvolveu estudos de grande importância. Ele teve grandeza na história por não atuar somente com consentimento em sua realidade histórica.


Bibliografia:




- Os intelectuais e a organização da cultura – Antonio Gramsci – Tradução: Carlos Nelson Coutinho – 8 ª edição – Civilização Brasileira



- O trabalho dos intelectuais segundo Gramsci – Alfredo Bosi – Debate & Crítica – número 6 – julho de 1975


- Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade - Vladimir Ilich Lênin – Tradução: M. João Delgado - Coimbra : Centelha, 1974


- www.sintratel.org.br

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