terça-feira, 15 de julho de 2008

A foto


Ela já chegou gritando. Era isso, era aquilo, que eu sou foda, um canalha, um cara sem moral - mulher louca. É claro que eu gritei mais alto, vou deixar mulher mandar em mim? De jeito nenhum. Foi aí que eu me fudi de vez. Aí que a mulher ficou brava mesmo, também sou babaca, babaca é pouco, um grande babaca, mas também chegar gritando e xingando é difícil de agüentar. Mulher mais mal educada.
Tô andando na Praça da Sé, comecei a andar para esclarecer as idéias, andei o centro todo, encontrei uns amigos, tomei umas cervejas, nem falei dela, mas um filadaputa me perguntou, tem cara que só leva a gente pra baixo, e pior, o cara disse que viu ela e um tal de Carlos, juntos, os dois rindo, juntinhos, mãos dadas, beijinho, deve até estar chamando de “meu amor”. E eu sofrendo, mas também tem cara que só põe a gente pra baixo, ave negra, ainda tive de pagar a cerveja pela informação, é um grande amigo.

Foi na Praça da Sé que a gente se conheceu. Morena bonita e formosa, gostosa mesmo, cheguei junto e a conquistei, na verdade fui conquistado. É, mas quem conquistou quem não interessa, o importante é que ela é gostosa. Imagina! Imaginou? Multiplica por dois, é uma beleza. Ela tava lá no bar do Zé, um baiano gente fina, decotão, calça apertada, dançado, a negada tudo babando, com ela tinha uma menina, nem lembro o nome, era as duas dançado, só fermentando pensamento na cabeça dos cara. Aí eu e um amigo pegamo cada uma pra dança, e foi a noite toda juntinho. Eu o só no psicológico e a morena rindo, aquela boca linda. Perguntei, e aí vamo, ela riu, aí fomos.

O problema foi a Aninha, lourinha linda, dá até arrepio, fiquei com ela, a mulher toma conhecimento e já chega gritando. Se descobrir quem contou eu mato, dedudurismo com a minha pessoa? Eu que só cuido da minha vida, se eu descubro...

Devo ter vindo para cá pela lembrança, lembrança e saudade. Ontem à noite foi duro, quem disse que eu conseguia dormir, era a noite inteira olhando para foto e o telefone no papel. Foto e telefone, foto e telefone, telefone e foto, foto e foto, telefone e telefone, foto e telefone, aí rasguei o telefone, joguei no lixo, de manhã, pequei o lixo, levei pra fora que era dia de lixeiro e deixei lá, fui pro ponto de ônibus, esperei na fila, deu dez minutos e eu lá me remoendo, não agüentei e voltei pra pegar o lixo e colar o papel do telefone. Agora só restou a foto na carteira e a vontade de ligar. Lixeiro filadaputa.

Porra! Vacilei!

Cadê a carteira? To ferrado! Também, ficar no mundo dos sonhos bem na Praça da Sé é coisa de otário, o lugar é cheio de trombadinha. Na carteira tava a foto e o pagamento do mês, isso que dá sair do trabalho em dia de pagamento e ficar andando pelo centro com a grana. Mas até que eu paguei barato para esquecer dela.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Carta dos índios

Carta dos índios

Foi encontrada recentemente uma carta que é prova cabal da existência da escrita nas comunidades indígenas em um momento anterior ao descobrimento do Brasil pelos portugueses e a inserção dos índios no mundo civilizado. Acreditava-se que antes do bondoso ato de catequização do indígena pelos jesuítas, e com isso, o maior contato do índio com a civilização, o homem americano-brasileiro não possuía um alfabeto escrito para representar sua língua. Isso era um erro, com a descoberta da carta prova-se que o índio possuía a escrita, e o mais curioso é que a carta descoberta relata as primeiras impressões dos indígenas com os navegantes portugueses, impressão que seria modificada como mostra a grandiosa historia brasileira. A seguir uma tradução da carta feita com o auxílio do alfabeto indígena-jesuítico e tradutores de comunidades indígenas.

“Venho por meio desta, relatar um prodigioso acontecimento que se deu em nossas terras, assim você como guerreiro chefe irá concluir o que deve ser feito. Por isso, irei narrar apenas o acontecido para que possa tomar suas conclusões: ‘Estava eu na praia com os companheiros tribais quando vimos três monumentos que cortavam o mar como um prodígio dos deuses, até pensamos que seriam os próprios que vinham nos visitar, mas na verdade desembarcaram seres não muito belos, tanto que apelidamos a embarcação de “transporte de gente feia e fedida”, os honrados navegantes estavam em condições lamentáveis, não sabemos se devido ao tempo em alto mar ou é o normal dessa tão bondosa gente. Enquanto nossos companheiros tribais tinham contato com a fauna navegante, que se denominaram “portugueses-cristãos-civilizados-europeus”, eles tinha contatos com as companheiras tribais, esse fato foi curioso por que eles olhavam a companheiras tribais e falavam “vergonha”, era “vergonha” pra cá, era “vergonha” pra lá, que as companheira tribais ficaram com vergonha. Assim, fui ter com Maanape, que é feiticeiro. Perguntei-lhe sobre nosso futuro e ele respondeu que iria olhar, preparou uma poção mágica – Maanape é feiticeiro – para ver o futuro:

- Estou vendo muita cana-de-açúcar, muitas terras com essa planta maravilhosa que traz riquezas e desenvolvimento. Chão de perder de vista. – Disse ele.

- Mas quem será o rei dessas terras? Quem mandara em nosso povo? Os portugueses? – perguntei-lhe – Estou com medo desses navegantes.

- Não – respondeu Maanape que é feiticeiro – será uns USA que controlarão as terras com cana-de-açúcar que trazem riquezas e desenvolvimento.

- Quando isto?

- Daqui a uns quinhentos anos.

- Não, eu quero saber o que irá acontecer em, no máximo, cem anos.

- Estou vendo muita cana-de-açúcar, muitas terras com essa planta maravilhosa que traz riquezas e desenvolvimento. Chão de perder de vista – Disse Maanape que é feiticeiro.

- Mas quem controlará tudo isto?

- Uns tal de holandeses.

- E nosso povo? Como fica? – pergunte-lhe

- Nosso povo irá contribuir muito para a riqueza e o desenvolvimento.

- E o que isso quer dizer?

- Que a gente se F...!!!!!!”



Gosto é que nem...

- Depois de muito pensar, pensar mesmo, analisando psicologicamente, filosoficamente, espiritualmente, materialmente, psiquiatricamente, eticamente, dialogicamente, esteticamente, psicanaliticamente, moralmente, catolicamente, protestantemente, metafisicamente, socialmente, historicamente, economicamente, sexualmente, liricamente, simiologicamente, empiricamente, gramaticalmente – até sintaticamente -, juridicamente, racionalmente, irracionalmente, sentimentalmente – até sem sentimento -, etc., etc., percebi que Deus é horripilantista.

- Não entendo.

- Na verdade é simples, na obra Dele cada um depreende o que quer.

O clássico de Glauber Rocha

O Clássico de Glauber Rocha

Quando penso em uma obra de arte clássica, penso no filme “terra em transe” de Glauber Rocha, um dos maiores diretores brasileiros. “Terra em transe” é um clássico, mas o que é um clássico?

Um clássico é uma obra cultural – como um romance, uma música um poema, um conto, um quadro – que tenha importância histórica e socialmente, que apresente uma ruptura no modo de fazer uma determinada arte, que apresente um aspecto inovador.

“Terra em transe” é um clássico por apresentar uma ruptura no modo de filmar no Brasil na metade do século XX. Influenciado pelo cinema europeu, que buscava sua identidade e com isso criava verdadeiros clássicos - Rosselini, Visconti, Buñuel, Bergman, entre outros – Glauber Rocha buscou dar uma identidade ao cinema brasileiro, com pouco dinheiro, porém com grandes idéias ele rompeu com que era filmado no Brasil e apresentou um novo modo de filmar. Com uma história sobre a política de um país fictício, Glauber discute a política dos países da America do sul, ou seja, seu cinema é uma obra de arte, mas também uma obra política, de acordo com o tipo de cinema proposto por Glauber, um cinema de qualidade e engajado. Além disso, ele apresenta uma maneira de filmar bastante pessoal, que se tornou um ponto de referencia para os cineastas brasileiros.

Essas qualidades, sua importância política e cinematográfica tornam o filme de Glauber Rocha, “terra em transe”, um clássico.

Sob a escola de Antonio Gramsci



A influência intelectual na formação do pensamento social

Entre 1919 e 1943, a Itália foi submetida a um regime político fascista, implantado por Benito Mussolini, após ter enfrentado longos anos de regime liberal. O fascismo fundado por Mussolini, foi oficializado em 1919, em Milão, a partir do movimento intitulado “Fascio de Combatimento” e integrado pelos “camicie nere” (camisa preta na tradução). Nesta época a Itália atravessava uma crise econômica, agravada entre outros motivos por manifestações de trabalhadores e greves. Diante disso, uma das medidas tomadas por este regime totalitarista foi o combate aos movimentos de esquerda. A maioria parlamentar fascista também promoveu a perseguição de partidos e parlamentares oposicionistas.

Antonio Gramsci, além de Deputado e Secretário do Partido Comunista Italiano, foi participante de atividades políticas de oposição ao regime fascista italiano de Mussolini. Consequentemente, foi preso em 08.11.1926. Ele passou os últimos anos de sua vida na prisão, com acesso a poucos livros. Gramsci foi um filósofo revolucionário e manteve em si sua militância. Enquanto estava preso desenvolveu uma série de estudos e reflexões, que geraram seus escritos. A compilação das anotações que sobreviveram ao tempo constituiu sua clássica obra que foi intitulada “Cadernos do Cárcere”. Acredito que os conceitos estudados e expressos por Gramsci em sua obra são de extrema importância, pois são fatos que estiveram presentes nas estruturas sociais que o precederam e continuam presentes até hoje.

Em seu famoso ensaio “A Formação dos Intelectuais” Gramsci questionou o processo de formação dos intelectuais. Cita e exemplifica a formação dos intelectuais “orgânicos”, cada vez mais dotados de “capacidade técnica”, “não somente no campo econômico, mas também no social e político”, que devem desenvolver em si consciência e aperfeiçoamento de suas funções a se desempenhar. Como Gramsci em seus estudos atentava muito para a questão da educação, tomei a liberdade de associar esta definição à atual educação brasileira: tanto nos treinamentos institucionais, quanto nos cursos técnicos e até nos de formação superior, é mais posta em evidência a capacidade no desempenho de uma função específica no mercado de trabalho, desenvolvendo cada vez mais o pensamento orgânico e ignorando a capacidade particular dos indivíduos. Assim, como os camponeses citados por Gramsci, mesmo com funções essenciais em seu trabalho, a massa cria cada vez menos seus próprios intelectuais, sejam eles “orgânicos” ou “tradicionais”.

Ao mencionar as categorias intelectuais preexistentes à sua época, fala da importância dos “intelectuais eclesiásticos”, uma categoria orgânica que evidentemente perdeu muita força com o passar dos anos, mesmo assim até hoje, a visão da Igreja (hoje constituída de diversas correntes religiosas), ainda tem poder no desenvolvimento do pensamento da população, que aceita as reflexões e interpretações de um determinado membro da hierarquia religiosa. Mesmo que este fato não cause impacto direto no desenvolvimento político da sociedade, o citei por acreditar que é um fato que tem grande responsabilidade pelos atos do não-pensar, acreditar, aceitar e obedecer, as informações (principalmente midiáticas na atualidade) que agregadas ao senso comum passam a atuar diretamente na política social. Assim contribuindo com a manutenção da estrutura ideológica vigente na sociedade.

Da mesma maneira colocada pelo autor, conforme as pessoas adquirem muita capacidade e embasamento em determinada atividade, começam a sentirem-se superiores aos demais que estabelecem relações com estas atividades, considerando-se enfim, autônomos e independentes do grupo social (ao contrário do colocado pelo autor, acredito que não somente do grupo social dominante, mas de qualquer grupo). Isto justifica a crescente individualização das pessoas, que tendem ao isolamento, que é expressivamente notável nas grandes metrópoles, dificultando a atividade de movimentos sociais e oposição aos interesses da classe dominante. A desunião da população trabalhadora (maioria) favorece a emergência da imposição de interesses da classe dominante (minoria). Nas grandes metrópoles, observo, que as pessoas se unem e compartilham de opiniões similares, em considerável parte, quando membros da mesma concepção religiosa. Dei importância a esta observação, pois é cada vez mais difícil a organização de reuniões espontâneas para discussão de qualquer assunto não-obrigatório e desvinculado de concepções religiosas.

Qualquer espécie de atividade, por mais mecânica que seja, necessita do emprego de capacidade intelectual. Não obstante, o que figura o sujeito, não é necessariamente sua capacidade no desenvolvimento das atividades, mas sua capacidade de relacionar-se caracterizando sua imagem como capaz. As relações sociais, sendo de trabalho ou não, contribuem com a fragmentação e concorrência dos membros dos grupos sociais e com a fixação dos valores que são agregados aos produtos. Para produção de um status que figure e apresente características pessoais, as pessoas se fragmentam, também, pelos produtos que consomem. Muita da confiança necessária para a participação de um grupo social dá-se através do consumido, seja ele um produto material ou cultural.

A construção do pensamento social varia de acordo com seus momentos históricos. As idéias que representam uma determinada sociedade são construídas como conseqüências das idéias construídas em um momento histórico anterior. Mesmo com a superação de boa parte das idéias anteriores, algumas destas idéias continuam se refletindo na sociedade. O conceito de Hegemonia estabelecido por Gramsci, representa a maneira de manter na sociedade um consenso para a construção de um pensamento social. Geralmente, este pensamento é linear com os ideais de interesse do Estado, portanto, favorece a ideologia dominante. Embora o Estado seja detentor de poder de coerção e coação, para estabelecer o consenso ele faz alianças acordando com seus interesses de sustentação econômica e ideológica. O Estado necessita de sólidas bases econômicas. Embora não participe diretamente das alianças estabelecidas por empresas para liderança no mercado, contribui através de suas falhas no sistema judiciário, pois é interessante para a circulação da moeda. Para ilustrar esta afirmação de minha opinião particular utilizarei como exemplo o atual crescimento das empresas de telemarketing no Brasil. Mesmo com a determinação do piso salarial de R$ 558,62 (não-comissionados) e R$ 510,92 (comissionados), para os operadores de telemarketing, as cinco empresas com maior lucro nos anos de 2005 e 2006, permaneceram e ainda permanecem com salários de pelo menos R$ 100,00 abaixo do piso (existe inclusive uma destas empresas que paga menos que o salário mínimo obrigatório de R$ 380,00). Existe também a obrigatoriedade da abertura de contas-salário para o recebimento do pagamento em banco. Isso não impede que grandes instituições bancárias façam contratos com grandes empresas de telemarketing, que obrigam seus funcionários a movimentarem seus salários em agências e contas especiais pré-determinadas. Esses funcionários têm uma redução média de R$ 30,00 em sua renda para manterem seus empregos graças às tarifas bancárias. Além disso, o sindicato dos operadores de telemarketing “garante” R$ 8,00 de vale alimentação a cada jornada de seis horas trabalhadas. As mesmas cinco empresas líderes de faturamento passam despercebidas por esta lei devido a uma parceria com uma empresa que produz lanches (a mesma nas cinco) . Logo, os funcionários recebem por dia um salgado de qualquer coisa e um mini refrigerante mais barato, que somados custam no varejo aproximadamente R$ 1,70 (imagine no atacado). Com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, creio que estes exemplos ilustram bem o sucesso de várias alianças. Por mais incrível que pareça, o operador de telemarketing fica feliz com seu baixo salário (pois não está nas estatísticas do desemprego), tem disponível facilidades financeiras (limite de conta bancária, cartão de crédito e empréstimos) e um lanchinho com baixos descontos em sua folha de pagamento. As instituições bancárias ficam felizes vendendo seus produtos e serviços através dos operadores de telemarketing e para os operadores de telemarketing. A empresa de lanches fica feliz produzindo para um mercado estável e com bastante economia de matéria prima. E claro que as empresas de telemarketing ficam felizes com o sucesso no faturamento e sem problemas com a lei.

O estabelecimento de alianças se faz necessário não somente quando em torno do acúmulo de capital. Mesmo antes de Gramsci desenvolver seu conceito de hegemonia, Lênin durante a Revolução Russa já havia percebido a necessidade de aliança entre trabalhadores e camponeses para solidificação da “Ditadura do Proletariado”, e para liderança no conflito com os Mencheviques.


“Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então: mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais”.
Antonio Gramsci



Sobrescrita uma das frases mais conhecidas de Gramsci, um grande intelectual que cumpriu de maneira extraordinária sua função na sociedade. Antonio Gramsci faleceu em 27.04.1937, aos 46 anos de idade, pouco depois de sair da cadeia. Mesmo com poucas bases de estudo, desenvolveu estudos de grande importância. Ele teve grandeza na história por não atuar somente com consentimento em sua realidade histórica.


Bibliografia:




- Os intelectuais e a organização da cultura – Antonio Gramsci – Tradução: Carlos Nelson Coutinho – 8 ª edição – Civilização Brasileira



- O trabalho dos intelectuais segundo Gramsci – Alfredo Bosi – Debate & Crítica – número 6 – julho de 1975


- Como iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade - Vladimir Ilich Lênin – Tradução: M. João Delgado - Coimbra : Centelha, 1974


- www.sintratel.org.br

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Tropicalismo e Antropofagia

Tropicalismo uma digestão do Modernismo

O tropicalismo deu uma valiosa contribuição na ampliação dos horizontes da música popular brasileira. Durante o período de incorporação de uma cultura massificada, o Tropicalismo fundia elementos antagônicos com o objetivo de criar um terceiro elemento resultante dos antagonismos da Cultura Brasileira.

No primeiro elemento das características tropicalistas, encontram-se referências ufanistas irônicas, através da exaltação do pitoresco nacional, da exuberância da natureza e do folclore. No segundo elemento, encontram-se referências aos aspectos do contexto industrial, que ressaltam os costumes e os meios de comunicação de massa, que eram conseqüência do desenvolvimento da sociedade moderna.

Embora o tropicalismo não tenha sido considerado um estilo musical engajado na crítica política, a fusão destes elementos mostram a similaridade com as paródias à sociedade moderna construídas sarcasticamente por Oswald de Andrade na Semana da Arte Moderna de 1922. Como os tropicalistas, Oswald de Andrade se utilizava de paródias para ridicularizar o ufanismo nacionalista. As paródias tropicalistas podem ser facilmente percebidas pelo contraste da exuberância brasileira emparelhada ao lado de símbolos da modernidade, como o jornal, símbolo também da inauguração da cultura de massa. Desta forma, o Tropicalismo tem como resultado um terceiro elemento proveniente do confronto de conteúdos assíncronos característicos da dinâmica cultural da sociedade brasileira.

Durante a incorporação dos elementos da sociedade industrial e da cultura de massa no Brasil - depois de comer o Manifesto Antropofágico e o Manifesto da Poesia Pau-Brasil -, o Tropicalismo pôde evidenciar os “destempos” que são estudados atualmente por Jesus Martín-Barbero, teórico dos estudos culturais dos meios de comunicação da América Latina. Pois, o Tropicalismo mostrou a dialogia entre o moderno e o arcaico, que prova a diferença de tempos sociais em um mesmo tempo histórico em um único Pindorama país do Futuro.

Mychelle Vera - 05.2008

A eztétika de Glauber Rocha



Interpretação do Brasil + Produção de signos de luta = Eztétika kynematográfika dialétika polýtika metafórika heuztórika de Glauber Rocha

Glauber Rocha nasceu na Bahia. Foi jornalista, cineasta, uma personalidade muito marcante em sua época. Escrevia em forma de manifesto, deixou a marca de sua militância nos espaços midiáticos. Era reconhecido por apresentar sempre sua visão crítica, transformava tudo em dialética.

Entre 1957 e 1958, Glauber Rocha reunia-se com seus amigos Miguel Borges, Carlos Diegues, David E. Neves, Mário Carneiro, Paulo Saraceni, Leon Hirszman, Marcos Farias e Joaquim Pedro de Andrade em bares de Copacabana e do Catete para desenvolver a dialética sobre o cinema nacional. Influenciados, cada um a sua maneira pelos quadros da nouvelle vague e do neo-realismo, se questionavam sobre um modelo estético que restaurasse o cinema nacional, envolvido na época pelo quadro das chanchadas pornoxykz, que Glauber apelidara de bossa-nova, porque este quadro discutia a subjetividade da burguesia, convidava a um passeio em uma praia maravilhosa, onde o único objetivo era uma bela mulher nua. Este não era um padrão aceito por este grupo. Queriam descobrir o Cinema de verdade. O Cinema-cinema. O Cinema novo.

Durante a idealização do Cinema novo, o único consenso estético partia do cinema de Roberto Rosselinni, figura expressiva no neo-realismo italiano, que trabalhava com atores amadores em seus filmes para retratar a verdadeira Itália que sofrera com o regime fascista de Benito Mussolini. Mas o Brasil não era como a Itália. Sua gênese tropical de terceiro mundo fazia com que a economia e a política deixassem as pesquisas dos cientistas sociais e políticos sempre a um passo para trás. O Brasil não poderia ser comparado a Europa nem mesmo pela estética. A América Latina enfrentava um processo de mudança constante de colonizador cultural. Dentre os países da América Latina, o Brasil vivia um quadro econômico e político singular. A cultura era ameaçada por processos econômicos e políticos. Glauber reconhecia que os movimentos da nouvelle vague e do neo-realismo haviam sido exterminados por falta de organização no plano econômico e político. A solução? Takar fogo na Kultura!

Era necessário expressar as especificidades do Brasil, lutar contra a hegemonia do imperialismo norte-americano, substituir as noções de arte do Realismo do século XIX por noções contemporâneas, e assim se libertar das influências estéticas organizadas pelo mundo ocidental capitalista.

Karl Marx expôs em seu “Manifesto do Partido Comunista” que os primeiros dizimados pelo sistema capitalista seriam os artesãos. Walter Benjamim diante do perigo eminente da produção em série, qualificou o cinema como produto do capitalismo, seus fins de exposição destruíam a aura, transformando o cinema em obra sem arte, sem valor de culto. Glauber Rocha lidava com as problemáticas dos cineastas, pois deveriam ser artesãos. Acreditava que o cinema era o reflexo da aura do diretor. Mesmo com as representações pré-programadas questionadas por Walter Benjamim, Glauber Rocha via no cinema a possibilidade de expor a aura de um artesão: o cinema de autor. O cinema não seria questão de fotografismo, pois a câmera seria o olho do autor sobre o mundo. O cinema não era feito para esbanjar recursos adquiridos graças ao enriquecimento proveniente do sistema capitalista. Pelo contrário, deveria servir como arma em momentos de crise econômica, extraindo a força de um povo miserável para a luta contra as adversidades políticas.

O cinema não poderia ser palco de discussões filosóficas, metafísicas ou antropológicas para estourar bilheterias e ofuscar os olhos da burguesia. Seria maravilhoso discutir filosofia, metafísica e antropologia, mas nenhuma dessas discussões pouparia o povo brasileiro da necessidade de comer. A eztétika da fome se oporia ao realismo, que Glauber classificara como razão burguesa. Ele queria compor o múltiplo homem brasileiro que tinha a fome como estímulo, um homem que vive cada crise em seus respectivos estados. A crise é a maior composição teórica do intelecto do povo brasileiro.

Glauber Rocha viu na Bienal de São Paulo de 1961 um equivalente do cinema novo à Semana da Arte Moderna de 1922, pois teve apoio dos críticos, aceitação aos documentários e impulsionou esta forma original de resgatar a essência do Brasil.

No Brasil durante a ditadura militar não havia censura prévia, portanto, todos os filmes podiam ser rodados. Porém, Glauber Rocha, assim como todos os artistas da época teve que sujeitar suas obras às revisões dos militares e muitas vezes escondê-las para possibilitar seu lançamento. Não obstante, o diretor não teve muitos problemas para deixar suas obras de maneira apropriada aos olhos dos militares, que não eram famosos por sua inteligência. A metáfora fora vista como melhor forma de expressão por Glauber Rocha, que não teve dificuldade em utilizá-la.

A revolução era a principal estética que Glauber Rocha tentou desenvolver. O resultado da construção dialética acerca da revolução cultural foi a construção de simultaneidade entre a épica e a didática. A didática tem a função de educar, informar, alfabetizar e conscientizar as massas ignorantes e as classes médias alienadas. E a épica deve provocar estímulo revolucionário. Desenvolver o sentimento de colaboração humana que possa realizar o objetivo infinito da revolução: revelar uma massa criadora, sem mitificação de nacionalismos culturais.

Contudo, o principal problema dos cinemanovistas era a distribuição, grande alvo do neocolonialismo. Glauber tinha muito empenho na produção de seus filmes, aliou-se a um grupo de produtores e constituíram a Difilm em 1967. Desta forma, faziam produções independentes e a Difilm distribuía. As distribuidoras convencionais retinham um percentual do adquirido com a exibição dos filmes, a Difilm investia o percentual arrecadado na produção de novos filmes. A Difilm garantia total liberdade ao realizador, pois fornecia independência do diretor em relação ao produtor e do produtor em relação à distribuidora. A Difilm foi dirigida por Luiz Carlos Barreto, incumbido da administração geral, e foi instalada em todo o Brasil. A Difilm tinha como projeto a instalação de novos cinemas e cineclubes que possibilitassem a popularização do cinema novo. A Difilm trabalhou em 16 mm em projeções em universidades, sindicatos e outras associações.

Em 1969 havia uma lei no Brasil que obrigava todos os cinemas a dedicarem 56 dias do ano a exibição de longas-metragens brasileiros. Neste mesmo ano a Difilm garantiu a produção de 87 filmes. O problema era transferido da produção à exibição. A importação de filmes estrangeiros era alicerce da neocolonização. Os exibidores compravam a preços baixos os filmes estrangeiros (principalmente americanos). O mercado de filmes brasileiros tinha potencial de ser o maior de toda a América do Sul, mas a televisão só exibia filmes importados. Era mais caro importar um negativo para rodar um filme no Brasil, do que importar um filme enlatado. Glauber Rocha via a importação como luta política. Sonhava com uma Internacional Cinematográfica, constituída pela união de produtores independentes e diretores-artesãos de todo o mundo.

“Desculpe-me querido Glaubinho, morro de vergonha, mas tenho que lhe dizer: você estava enganado. Em 2008 ninguém sabe o que foi cinema novo. Suas sugestões de interferência no intercâmbio econômico foram jogadas no lixo. O Brasil ainda sofre de maneira direta com o neocolonialismo americano nas produções e exibições dos filmes. A televisão ainda é o altar dos EUA. Os filmes americanos lotam os cinemas. Não existe mais oposição à hegemonia do imperialismo norte-americano, hoje, ele é deliciosamente saboreada pelos jovens estudantes. Os filmes nacionais são degustados em salas semi-vazias por pseudo-intelectuais burgueses à uma média de preço que gira em torno de R$20,00. Os cineclubes têm sua falência decretada pela cultura-vício imperialista. Mas não se preocupe meu amigo, também lhe trago notícias “boas”: A era da reprodutibilidade técnica pariu uma grande indústria de distribuição de filmes que tem muitas filiais em todo o Brasil e é isenta de impostos, ela garante o sustento de muitas famílias de desempregados, empobrece os cartéis cinematográficos e vende alguns filmes nacionais à preço que as pessoas pobres podem pagar. Esta indústria é chamada Pirataria, acredita? Dois de seus filmes estão salvos em DVD´s de baixa vendagem, pois custam mais de 10% de um salário mínimo. Nosso amigo Ismail Xavier conseguiu viabilizar a publicação de seus textos que irão servir na reconstrução da dialética do cinema, ou virarão alfarrábios...”
Mychelle Vera - 04.2008